Crônicas de um Cervejeiro Anunciado I: primeiros copos

Crônicas de um Cervejeiro Anunciado I: primeiros copos
28/02/2015 José Roberto Rocha

De todos os interesses que cultivo, a cerveja é provavelmente aquele que surgiu mais tarde. Não que eu não bebesse antes, mas durante a adolescência – e boa parte da vida adulta – meu fascínio era mais relacionado à embriaguez que à bebida em si. Apenas muito tempo depois descobri que a cerveja poderia ser um meio de atingir outros estados de espírito, menos associados a fins de noite buscando desesperadamente fontes de glicose e a ressacas morais retumbantes.

Ainda na Paraíba, onde nasci e morei até 2009, comecei timidamente a correr atrás dos rótulos possíveis em um mercado ainda incipiente – hoje bem atendido, diga-se de passagem. Nesse primeiro momento, amigos já convertidos exercitavam seu proselitismo nos bares que costumávamos frequentar, onde os parâmetros para pedir cerveja variavam tão somente entre preço e temperatura. Em um contexto como esse, ouvi-los falar de rótulos longínquos e sabores insuspeitos era quase um exercício de narrativa fantástica: para mim, os relatos de um cara como Tiago Grisi tinham a paixão imaginativa de Jules Verne e a franqueza alcoolizada de Reginaldo Rossi. É pouco provável que haja uma combinação melhor para alguém que se inicia nesse mundo.

Já em Brasília, com algum dinheiro no bolso e deslumbrado com as opções à mão, me lancei atabalhoadamente nos mais diversos estilos. Daí em diante, trata-se de um relato quase ordinário: leituras pouco sistemáticas; garrafas abertas; rotina profissional impedindo um diletantismo mais sério; brindar de copos; curiosidade sobre o processo de fabricação; latas empilhadas; e, enfim, um curso de fim de semana para testar até onde iria meu entusiasmo pelo assunto. Dessa forma, no início de 2013 conversei com um amigo, Felipe Antunes, e juntos fizemos o clássico curso de produção de cerveja da Cangandobräu, ministrado pelo folclórico Andreas.

Após esse ritual de passagem, naturalmente as leituras se adensaram e, para não perder o embalo, resolvemos dividir custos e começar uma produção tímida: a ideia inicial era uma brassagem de 25/30 litros a cada dois meses, alternando o responsável pela receita e dividindo igualmente as garrafas produzidas. Quase dois anos depois, tivemos de nos contentar com apenas quatro brassagens, todas elas com receitas de Felipe, a parte comprometida da dupla. Não fomos particularmente metódicos, mas nenhuma das levas foi contaminada, e nossa última criação conjunta, uma amber lager improvável, nos deixou especialmente orgulhosos. No final do ano passado, Felipe foi morar no exterior e eu, legítimo herdeiro do equipamento, senti-me compelido a levar a coisa toda adiante, descobrindo uma tenacidade que já acreditava enterrada pelo peso da rotina profissional – que nada tem a ver com cerveja, infelizmente.

Esta coluna – mensal, eu espero – servirá justamente como o relato de minha emancipação enquanto cervejeiro, processo que envolve meu maior engajamento na ACervA Candanga. Nesse sentido, meus textos consistirão em uma larga panorâmica sobre toda a experiência que eu conseguir acumular nesse período. Impulso quase contraditório, na verdade: fixar individualmente o conhecimento a partir de sua partilha com outras pessoas. Um falso paradoxo, no entanto: o conhecimento se refina e evolui justamente quando se expõe ao público interessado. Mais ou menos como uma boa cerveja caseira.

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